{"id":2826,"date":"2022-06-09T15:33:50","date_gmt":"2022-06-09T15:33:50","guid":{"rendered":"https:\/\/mugwortborn.wpengine.com\/project\/episode-eighteen-waiting-for-fudo\/"},"modified":"2022-07-19T15:24:46","modified_gmt":"2022-07-19T15:24:46","slug":"episode-eighteen-waiting-for-fudo","status":"publish","type":"project","link":"https:\/\/mugwortborn.com\/pt-br\/project\/episode-eighteen-waiting-for-fudo\/","title":{"rendered":"EPIS\u00d3DIO DEZOITO &#8211; Esperando Fudo"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Sr. Mao era um chin\u00eas alto, espada\u00fado e corpulento. Com seus setenta e tantos anos, era calvo exceto por uma orla de ralos cabelos grisalhos que se estendia de orelha a orelha, mas sua face rosada e um ar malicioso lhe conferiam a apar\u00eancia de um adolescente malandro que vive se metendo em confus\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A prop\u00f3sito, o meu Sr. Mao era uma pessoa totalmente diferente daquele outro Sr. Mao de Hunan, famoso por libertar milh\u00f5es de chineses dos grilh\u00f5es de um feudalismo feroz \u2013 e infame pela impiedosa e irrevers\u00edvel estupidez da Revolu\u00e7\u00e3o Cultural.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O meu Sr. Mao vinha de Tai Chung, Taiwan, e era um seguidor do Darma do Buda. Como seu modo de ver as coisas tinha matizes tao\u00edstas, suspeito que ele tenha se aproximado do Budismo j\u00e1 numa idade avan\u00e7ada. Dito isso, ele era tudo menos um praticante taiosta profissional (fen\u00f4meno comum entre os chineses), mas nunca criei coragem de perguntar. Na \u00e9poca em que conheci o Sr. Mao ele havia adotado um tipo de pensamento tao\u00edsta quase xam\u00e2nico amarrado junto com algum conhecimento de aspira\u00e7\u00f5es budistas, algo que havia se tornado popular quando os taiwaneses se encantaram pela moda do rec\u00e9m redescoberto budismo t\u00e2ntrico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os taiwaneses s\u00e3o um povo caloroso como poucos, e essa receptividade \u00e9 atribu\u00edda ao confucionismo. Eles at\u00e9 t\u00eam uma palavra para isso: &#8220;ren-ai&#8221;. Se voc\u00ea pegar um mapa de Taiwan, vai encontrar um munic\u00edpio de Ren-ai, um distrito de Ren-ai, restaurantes chamados Ren-ai e at\u00e9 uma rua Ren-ai, na cidade de Taipei. O Sr. Mao era a pr\u00f3pria encarna\u00e7\u00e3o do ren-ai. Ele era receptivo, amig\u00e1vel, generoso e profundamente dedicado ao Darma do Buda. No entanto, tinha um ponto fraco: n\u00e3o podia resistir aos prazeres da mesa e a grandes quantidades de bebidas destiladas. Os asi\u00e1ticos, especialmente os budistas chineses, frequentemente julgam se uma pessoa \u00e9 ou n\u00e3o budista \u201cde verdade\u201d por sua conduta (um budista de verdade n\u00e3o come carne nem bebe \u00e1lcool e assim por diante) e n\u00e3o pela frequ\u00eancia com que ela contempla a imperman\u00eancia e a natureza ilus\u00f3ria da vida. O crit\u00e9rio que adotam para reconhecer um budista de verdade s\u00e3o a conduta e o bom comportamento \u2013 deles mesmos e dos demais \u2013, n\u00e3o a abrang\u00eancia da vis\u00e3o &#8220;correta&#8221; da pessoa em quest\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 de admirar que o Sr. Mao enrubescesse encabulado toda a vez que se empanturrava de comida ou tomava um porre de saqu\u00ea, como quem diz, &#8220;Eu sei, eu sei; \u00e9 verdade. Eu realmente sou o pior budista do mundo.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu era ainda bem jovem em 1984 e estava come\u00e7ando a explorar o mundo al\u00e9m das fronteiras da minha terra natal himalaia. Muitas vezes me perguntei se n\u00e3o foi o meu gosto por qualquer coisa que n\u00e3o seja muito \u00e9tica ou saud\u00e1vel que me atraiu ao Sr. Mao. O que quer que tenha sido, logo nos tornamos amigos pr\u00f3ximos, e t\u00ednhamos em comum assuntos masculinos que pouco tinham a ver com o Dharma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como muitos taiwaneses de sua idade, o Sr. Mao era fascinado por tudo que fosse japon\u00eas e falava no Jap\u00e3o sem parar (mesmo tendo o Jap\u00e3o colonizado Taiwan no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, com resqu\u00edcios disso evidentes at\u00e9 hoje.) Para o Sr. Mao, tudo o que fosse japon\u00eas \u2013 montanhas, \u00e1rvores, templos, era &#8220;fabuloso&#8221;, &#8220;perfeito&#8221;, &#8220;do outro mundo&#8221; \u2013 e o povo japon\u00eas era sempre elegante e bem-vestido (ele falava nisso o tempo todo). Ele tamb\u00e9m adorava exibir o que aos meus ouvidos soava como japon\u00eas fluente. Em vez de atender o telefone com o costumeiro &#8220;Wai!&#8221; chin\u00eas, ele berrava &#8220;Moshi Moshi!&#8221;, para inc\u00f4modo de v\u00e1rios de seus amigos, cuja percep\u00e7\u00e3o dos japoneses na \u00e9poca era ambivalente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Logo que nos conhecemos, o entusiasmo do Sr. Mao em me familiarizar com todos os aspectos da cultura japonesa fora tamanho que ele decidiu me pagar uma viagem a T\u00f3quio e Kyoto. Francamente, n\u00e3o foi preciso muito para me convencer. Eu estava mais do que disposto a ver pessoalmente aquele mundo m\u00e1gico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes de conhecer o Sr. Mao, o pouco que eu sabia a respeito do Jap\u00e3o era caricato. Tendo crescido na \u00cdndia, eu aprendera a respeitar o r\u00f3tulo &#8220;made in Japan&#8221;, confiante de que seria prova da mais alta qualidade (na \u00e9poca, um Seiko era t\u00e3o desej\u00e1vel quanto um Patek Phillippe \u00e9 hoje). Eu aprendera um pouco sobre Pearl Harbour nos filmes americanos, embora a representa\u00e7\u00e3o da brutalidade japonesa me causasse um certo desconforto. Eu tamb\u00e9m tinha ouvido falar que os EUA haviam lan\u00e7ado bombas at\u00f4micas em Hiroshima e Nagasaki, mas o horror do ocorrido me escapara at\u00e9 ent\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pisei na Terra do Sol Nascente pela primeira vez numa noite fria e chuvosa de dezembro de 1984. O Sr. Mao organizara tudo de antem\u00e3o. Com a energia de um verdadeiro entusiasta, ele reservara excurs\u00f5es de \u00f4nibus de ida e volta todos os dias, o dia todo. Acord\u00e1vamos antes do amanhecer e em geral retorn\u00e1vamos ao hotel muito depois do p\u00f4r do sol, tendo nos deixado levar por uma s\u00e9rie de guias tur\u00edsticos en\u00e9rgicos e competentes que nos guiavam por tantos monumentos famosos, parques e bairros de compras quanto humanamente poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nosso hotel nos oferecia, provavelmente, os menores quartos do mundo. Mesmo assim, o que eu ocupei tinha tudo que eu precisava, incluindo escova de dentes, pente, chinelos e, por milagre, at\u00e9 um aparelho de televis\u00e3o. A televis\u00e3o japonesa me deixou t\u00e3o fascinado que muitas vezes, em vez de dormir, eu assistia TV at\u00e9 o raiar do sol. Foi nessa min\u00fascula tela de televis\u00e3o que vi pela primeira vez Momoe Yamaguchi, a atriz japonesa que estrela Izu no Odoriko, de Katsumi Nishikawa \u2013 e me apaixonei na mesma hora. Eu n\u00e3o fazia ideia de que o filme era um cl\u00e1ssico cult no Jap\u00e3o da \u00e9poca e s\u00f3 muito mais tarde vim a descobrir que era baseado numa hist\u00f3ria de autoria do pr\u00eamio Nobel Yasunari Kawabata.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"622\" height=\"890\" src=\"https:\/\/mugwortborn.com\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/1-Momoe-Yamaguchi.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-2730\" srcset=\"https:\/\/mugwortborn.com\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/1-Momoe-Yamaguchi.png 622w, https:\/\/mugwortborn.com\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/1-Momoe-Yamaguchi-480x687.png 480w\" sizes=\"(min-width: 0px) and (max-width: 480px) 480px, (min-width: 481px) 622px, 100vw\" \/><figcaption>Momoe Yamaguchi<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como eu era muito jovem, n\u00e3o foi de surpreender que minha lealdade \u00e0 deslumbrante Momoe Yamaguchi logo tenha sido eclipsada por uma devo\u00e7\u00e3o ainda maior pela inebriante Setsuko Hara, que at\u00e9 hoje permanece na minha mem\u00f3ria como uma das mulheres japonesas mais inspiradoras que j\u00e1 conheci. No entanto, \u00e0s vezes me pergunto se o grande efeito que ela teve sobre mim se deveu a ela pr\u00f3pria ou a ter sido t\u00e3o magistralmente dirigida pelo formid\u00e1vel Yasujiro Ozu.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"755\" src=\"https:\/\/mugwortborn.com\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/3-Setsuko-Hara-1024x755.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-2738\" srcset=\"https:\/\/mugwortborn.com\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/3-Setsuko-Hara-980x723.png 980w, https:\/\/mugwortborn.com\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/3-Setsuko-Hara-480x354.png 480w\" sizes=\"(min-width: 0px) and (max-width: 480px) 480px, (min-width: 481px) and (max-width: 980px) 980px, (min-width: 981px) 1024px, 100vw\" \/><figcaption>Setsuko Hara<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Sr. Mao estava particularmente interessado em me apresentar \u00e0 famosa vida noturna de T\u00f3quio, embora eu precise admitir que minha primeira experi\u00eancia de Asakusa, na cidade velha, foi de um certo choque cultural. Mas logo superei aquilo e me vi t\u00e3o \u00e1vido quanto o Sr. Mao por explorar a noite de T\u00f3quio. Quando n\u00e3o est\u00e1vamos vagando em Asakusa, est\u00e1vamos provando as del\u00edcias de Harajuku, onde as meninas japonesas usavam os sapatos de plataforma mais altos e imponentes do mundo e mini-saias t\u00e3o curtas que mais pareciam cintos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O fen\u00f4meno do karaoke havia rec\u00e9m pousado no Jap\u00e3o e logo se espalharia rapidamente por Taiwan, Coreia e todo o resto da \u00c1sia. No in\u00edcio dos anos 1980 era o programa ideal e o Sr. Mao o adorava. Fitando encantado a tela do karaoke, seus olhos seguiam a letra das m\u00fasicas, enquanto ele cantava a plenos pulm\u00f5es. De in\u00edcio eu me senti envergonhado por ele, pois era um p\u00e9ssimo cantor. Depois, percebi que homens como o Sr. Mao iam a esses bares para esquecer da vida, depositando todas as suas esperan\u00e7as, medos, amores e desejos nas can\u00e7\u00f5es. \u00c9 prov\u00e1vel que fosse a \u00fanica oportunidade que eles tinham de se expressar. Os v\u00eddeos que assistiam enquanto cantavam eram de m\u00fasicos populares, incluindo os mais recentes \u00eddolos adolescentes, e quase todas as can\u00e7\u00f5es eram sobre paix\u00f5es e cora\u00e7\u00f5es partidos. Fiquei intrigado com a satisfa\u00e7\u00e3o demonstrada por aqueles dedicados cantores de karaoke, que pegavam emprestado a apar\u00eancia e as performances de pessoas mais jovens via v\u00eddeo (incluindo os arranjos musicais e bandas de apoio) e depois simplesmente cantavam junto com eles, de novo e de novo. Muitas vezes passava da meia noite quando eu e o Sr. Mao retorn\u00e1vamos ao nosso hotel, ele para sua cama, eu para minha televis\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como budista, os grandes templos zen, como o Daitokuji ou o Sanjusangen-do, em Kyoto, encheram-me de orgulho. Lembro que fiquei espantado ao saber que o espetacularmente belo templo de Kiyomizu-dera vinha a ser a sede da Escola Citamatra. Nem mesmo em meus mais desvairados sonhos eu imaginara que a filosofia citamatra que estud\u00e1vamos quando adolescentes continuava formalmente vinculada a um templo espec\u00edfico. Contudo, n\u00e3o levei muito tempo para notar que os japoneses haviam perdido o apre\u00e7o pelo Darma do Buda e pelos valores budistas e, pela primeira vez na vida, experimentei uma profunda tristeza por aquela perda. Agora, os templos imaculados e os g\u00e9lidos e ma\u00e7antes jardins zen s\u00e3o de uma beleza primorosa, mas vazios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na minha terra, no sop\u00e9 dos himalaias, quase todos os templos vibravam com a atividade espiritual. Os pr\u00e9dios dos templos, ca\u00f3ticos e desgastados pelo uso, eram repletos de monges, monjas, iogues e devotos, tinham paredes e tetos enegrecidos pela fuligem de s\u00e9culos de oferendas di\u00e1rias de lamparinas de manteiga, e o ar era carregado com o aroma de incenso, pois sempre havia um puja ou outro sendo celebrado. Era muito diferente do Jap\u00e3o, onde havia poucos monges e monjas e os templos eram pouco mais que monumentos impec\u00e1veis e refinados \u00e0 integridade art\u00edstica japonesa. \u00c0s vezes me pergunto se daqui cinquenta anos os templos tradicionais do budismo tibetano que os lamas est\u00e3o construindo pelo mundo afora tamb\u00e9m n\u00e3o acabar\u00e3o se tornando mausol\u00e9us culturais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Jap\u00e3o \u00e9 um pa\u00eds excepcionalmente caro e o Sr. Mao n\u00e3o era o mais rico dos homens. Sabendo o quanto ele estava gastando comigo, n\u00e3o me afastei da minha decis\u00e3o inicial de manter a viagem breve. Talvez tenha sido justamente a exiguidade do nosso tempo no Jap\u00e3o que inspirara o Sr. Mao a abarrotar cada um de nossos dias com tantos passeios e compras. E como eu tamb\u00e9m estava tirando o m\u00e1ximo proveito do meu min\u00fasculo aparelho de televis\u00e3o, eu raramente dormia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma ou duas vezes me aventurei sozinho, mas quase sempre me perdia e precisava pedir orienta\u00e7\u00e3o. Todos a quem pedi ajuda se desdobraram para me auxiliar, o que me fazia sentir uma certa culpa pelo inc\u00f4modo que causava. Um sujeito particularmente am\u00e1vel me acompanhou por mais de tr\u00eas quil\u00f4metros para garantir que eu chegasse ao endere\u00e7o certo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi num desses meus passeios sozinho que notei o servi\u00e7o de manuten\u00e7\u00e3o das estradas e os canteiros de obra do Jap\u00e3o, ambos impec\u00e1veis. Fosse a manuten\u00e7\u00e3o das estradas, a instala\u00e7\u00e3o de linhas telef\u00f4nicas ou a constru\u00e7\u00e3o de um arranha-c\u00e9u, o local de trabalho estava sempre impecavelmente limpo e organizado, todas as ferramentas e materiais cuidadosamente empilhados e alinhados. Eu espiava dentro dos \u00f4nibus que guardavam o equipamento dos trabalhadores s\u00f3 para admirar as fileiras de ferramentas rotuladas e numeradas, e frequentemente me pegava desejando que os monges da minha terra tamb\u00e9m fossem t\u00e3o meticulosos e sistem\u00e1ticos \u2013 especialmente os respons\u00e1veis pelos altares e templos. Tamb\u00e9m notei, para meu espanto, que al\u00e9m de um ex\u00e9rcito de competentes trabalhadores de constru\u00e7\u00e3o, cada canteiro de obras dispunha de dois a quatro rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas que passavam o dia inteiro pedindo desculpas aos transeuntes por qualquer inconveniente que a obra porventura lhes houvesse causado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E tamb\u00e9m tinha os auxiliares de estacionamento. Muitos edif\u00edcios japoneses t\u00eam estacionamento subterr\u00e2neo. Quando um carro entra ou sai, uma equipe de manobristas surge instantaneamente para conduzir a chegada ou partida de cada carro e para pedir desculpas aos pedestres pelo inconveniente. N\u00e3o imagino que nada parecido exista em algum outro lugar do mundo, muito menos na \u00cdndia ou em Nova Iorque. A maioria das empresas consideraria esse servi\u00e7o como um desperd\u00edcio de dinheiro e do tempo dos funcion\u00e1rios. Mas \u00e9 justamente esse tipo de aten\u00e7\u00e3o aos detalhes que faz o Jap\u00e3o ser o Jap\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O \u00fanico lugar em que jamais me perdi foi na esta\u00e7\u00e3o de trem de Shinjuku. Apesar do labirinto em expans\u00e3o de linhas de trem, Shinjuku \u00e9 t\u00e3o bem projetada que n\u00e3o precisei de nenhum japon\u00eas para me localizar. Vindo de uma terra onde os trens est\u00e3o sempre atrasados \u2013 \u00e0s vezes por mais de uma semana \u2013 fiquei pasmo ao descobrir que os trens japoneses n\u00e3o s\u00f3 chegam no hor\u00e1rio, mas chegam no hor\u00e1rio com precis\u00e3o de segundos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pessoalmente, gostei mais das zonas mais modernas e descoladas de T\u00f3quio, como Shinjuku ou a luxuosa Omotesando, cheias de gente jovem na moda, muitas vestidas como personagens dos mang\u00e1s. Era como se meus olhos estivessem grudados nos trajes que aqueles jovens haviam escolhido exibir, particularmente os rapazes. A sua aten\u00e7\u00e3o aos detalhes e o tempo e esfor\u00e7o que investem antes de sair \u00e9 inacredit\u00e1vel. Um cara pode estar usando s\u00f3 um jeans azul com cinto e camisa branca, um blazer preto bem cortado e uma bolsa jogada casualmente sobre o ombro \u2013 mas ele deve ter passado no m\u00ednimo uma hora, se n\u00e3o mais, aperfei\u00e7oando aquele look.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"399\" src=\"https:\/\/mugwortborn.com\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/TokyoKids-1024x399.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2746\" srcset=\"https:\/\/mugwortborn.com\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/TokyoKids-980x382.jpg 980w, https:\/\/mugwortborn.com\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/TokyoKids-480x187.jpg 480w\" sizes=\"(min-width: 0px) and (max-width: 480px) 480px, (min-width: 481px) and (max-width: 980px) 980px, (min-width: 981px) 1024px, 100vw\" \/><figcaption>Moda de rua em T\u00f3quio, 2022<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dia, quando me sentei num vag\u00e3o superlotado, um p\u00e9 elegante adornado por um t\u00eanis me chamou a aten\u00e7\u00e3o. Mesmo aos meus olhos, o tal t\u00eanis era uma obra de arte. Dei uma olhada no outro p\u00e9 e precisei olhar de novo. Era um mocassim, um mocassim t\u00e3o lindo quanto o t\u00eanis, mas continuava sendo um mocassim. Foi a\u00ed que notei que o p\u00e9 de t\u00eanis estava com uma meia tartan, e o p\u00e9 de mocassim com uma meia xadrez comum. Intrigado, meus olhos foram subindo e escaneando o corpo do sujeito em p\u00e9 na minha frente. Ele vestia um par de jeans preto skiny desfiado abaixo do joelho para mostrar as meias e preso por um cinto largo de couro macio, com uma enorme fivela de cowboy de metal. Sobre um fino su\u00e9ter roxo de gola alta, o blazer listrado que ele usava era da cor do \u00edndigo. Como ele se segurava na al\u00e7a de couro que pendia do teto, notei que usava an\u00e9is em todos os dedos, inclusive nos polegares, al\u00e9m de pulseiras. Para arrematar, levava um chap\u00e9u Caballero preto perfeitamente equilibrado sobre a cabe\u00e7a e uma tran\u00e7a de cabelos negros pendia at\u00e9 o meio de suas costas. Enfim, uma obra-prima.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Conforme se aproximava a data de minha partida, me ocorreu que deveria aproveitar ao m\u00e1ximo cada instante que me restava naquele pa\u00eds extraordin\u00e1rio. Naquela noite, bem depois da meia-noite, vi-me sentado em mais um vag\u00e3o de metr\u00f4 lotado, regalando meus olhos, \u00e0quela altura cansados, com os maravilhosos sapatos, bolsas, jaquetas, manicures esquisitas e todo o tipo de chap\u00e9us. (Nos dias de hoje, todos estariam absortos em seus celulares. Naquela \u00e9poca, as pessoas enterravam o nariz nos mang\u00e1s.)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De repente, do outro lado do vag\u00e3o, eu pensei ter visto\u2026 N\u00e3o, tive certeza que vi\u2026 Ser\u00e1 poss\u00edvel? Inclinei-me para a frente para ver melhor. Era ele mesmo. O grande Fudo Myo-o estava sentado no mesmo vag\u00e3o. Preto, corpulento e musculoso, a cabeleira encaracolada num coque no topo da cabe\u00e7a e uma tran\u00e7a pendendo sobre o ombro esquerdo, e os dois caninos \u00e0 mostra, um apontando para cima e o outro para baixo. Por um instante, o tempo parou. Precisei desviar o olhar, pois a pot\u00eancia desse breve vislumbre foi avassaladora. Por alguns segundos, hesitei em levantar os olhos novamente. Logo, ardendo de curiosidade, levantei a vista para dar outra olhada. Ele havia desaparecido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Teria sido uma apari\u00e7\u00e3o? Uma miragem? Uma vis\u00e3o? Quem sabe. Na \u00e9poca me perguntei se t\u00ea-lo visto n\u00e3o seria um sintoma da exaust\u00e3o provocada pela nossa desgastante programa\u00e7\u00e3o di\u00e1ria. Ou um efeito da enorme quantidade de programas de TV que eu devorara, a maioria sobre samurais, ninjas e os yakuza, cujos corpos tatuados frequentemente exibiam representa\u00e7\u00f5es v\u00edvidas de Fudo Myo-o. No entanto, em retrospecto, ele estivera na minha mente desde o in\u00edcio da viagem, especialmente depois que me disseram, numa das excurs\u00f5es de \u00f4nibus do Sr. Mao, que o Jap\u00e3o tem sua pr\u00f3pria vertente de budismo vajrayana. Como seguidor do vajrayana, essa descoberta me empolgara e desde ent\u00e3o sacrifiquei de bom grado v\u00e1rios jantares em restaurantes e expedi\u00e7\u00f5es de compras para visitar uns poucos dos grandes templos t\u00e2ntricos do Jap\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"556\" height=\"532\" src=\"https:\/\/mugwortborn.com\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Hombre_con_horimono_Fudo\u0304_Myo\u0304-o\u0304_en_pecho.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2722\" srcset=\"https:\/\/mugwortborn.com\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Hombre_con_horimono_Fudo\u0304_Myo\u0304-o\u0304_en_pecho.jpeg 556w, https:\/\/mugwortborn.com\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Hombre_con_horimono_Fudo\u0304_Myo\u0304-o\u0304_en_pecho-300x287.jpeg 300w, https:\/\/mugwortborn.com\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Hombre_con_horimono_Fudo\u0304_Myo\u0304-o\u0304_en_pecho-480x459.jpeg 480w\" sizes=\"(max-width: 556px) 100vw, 556px\" \/><figcaption>Foto de Dean Marchand<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi durante essa viagem que estabeleci meu primeiro contato (numa viagem repleta de primeiras-vezes) com o Budismo Shingon. As intrincadas mandalas shingon e os altares impec\u00e1veis, meticulosamente concebidos e lindamente adornados eram t\u00e3o diferentes dos templos indianos e tibetanos quanto se possa imaginar, e fiquei fascinado por eles. Como o grande autor japon\u00eas, Jun\u2019ichiro Tanizaki escreveu em seu ensaio <em>Ode \u00e0s Sombras<\/em>:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cNa arquitetura do templo, o sal\u00e3o principal fica a uma dist\u00e2ncia consider\u00e1vel do jardim; l\u00e1, a luz \u00e9 t\u00e3o t\u00eanue que, seja qual for a esta\u00e7\u00e3o do ano, nos dias claros ou encobertos, seja manh\u00e3, meio-dia ou ao anoitecer, a penumbra p\u00e1lida, branca, raramente varia. E as sombras nos interst\u00edcios dos pain\u00e9is parecem estranhamente im\u00f3veis, como se a poeira depositada nos cantos tivesse se tornado parte do papel em si. Eu pestanejo incerto ante essa luminosidade on\u00edrica, como se uma pel\u00edcula nebulosa embotasse a minha vis\u00e3o. A luz filtrada pelo alvo papel branco, impotente para dissipar a espessa treva da alcova, \u00e9 em vez disso repelida pela escurid\u00e3o, criando um territ\u00f3rio de incerteza onde luz e sombra s\u00e3o indistingu\u00edveis. N\u00e3o ter\u00e3o voc\u00eas mesmos, leitores, sentido uma diferen\u00e7a na luz que impregna um c\u00f4modo como esse, uma rara tranquilidade n\u00e3o encontrada na luz comum? N\u00e3o ter\u00e3o sentido um certo temor perante o atemporal, um receio de que num c\u00f4modo assim toda a consci\u00eancia do passar do tempo se perca, que incont\u00e1veis anos decorram e ao emergir dali se vejam envelhecidos e grisalhos?\u201d [1]<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O impacto dessas sombras japonesas era imenso. Assim como os jovens japoneses d\u00e3o import\u00e2ncia \u00e0 sua apar\u00eancia, parece-me claro que os shoguns, samurais, imperadores e pessoas comuns do Jap\u00e3o de outrora deram tudo de si, cora\u00e7\u00e3o e mente, a cada detalhe desses templos, chegando a dispor as janelas de modo que a luz do sol incida no altar no \u00e2ngulo exato.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Muitos templos Shingon abrigam est\u00e1tuas e mandalas impressionantes. Em todos os lugares que visitei vi mandalas do Mahavairocana Sutra e do Vajrashekhara Sutra[2] cercadas por imagens das principais deidades e seus s\u00e9quitos. No entanto, mesmo em t\u00e3o ilustre companhia, era imposs\u00edvel n\u00e3o se notar as est\u00e1tuas e pinturas de Fudo Myo-o. Talvez a mais querida e mais solicitada de todas as deidades japonesas, suas fei\u00e7\u00f5es e forma \u2013 esculpidas em pedra, pintadas nas paredes, impressas com blocos de madeira, descritas em caligrafia e assim por diante \u2013 s\u00e3o inconfund\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"562\" height=\"800\" src=\"https:\/\/mugwortborn.com\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/21034628_1392840557497535_4520811367898392802_n.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2754\" srcset=\"https:\/\/mugwortborn.com\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/21034628_1392840557497535_4520811367898392802_n.jpg 562w, https:\/\/mugwortborn.com\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/21034628_1392840557497535_4520811367898392802_n-480x683.jpg 480w\" sizes=\"(min-width: 0px) and (max-width: 480px) 480px, (min-width: 481px) 562px, 100vw\" \/><figcaption>Fudo Myo-o<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diferentemente do amado Nataraja da \u00cdndia, o Shiva Dan\u00e7arino, que \u00e9 adorado por suas curvas sensuais, pela maleabilidade e for\u00e7a dos membros esbeltos, pelos ombros largos e a perfeita postura do p\u00e9 esquerdo graciosamente erguido, Fudo Myo-o \u00e9 tenebrosamente amea\u00e7ador, poderoso e at\u00e9 perturbador. Embora algumas das est\u00e1tuas que vi no Jap\u00e3o o representassem com ambos os olhos abertos e esbugalhados sob o senho feroz, ou com um olho apontando para cima e o outro para baixo, a imagem que me \u00e9 mais familiar o representa com um olho aberto e o outro fechado. A bocarra lembra um drag\u00e3o chin\u00eas ou um sapo, geralmente com um lado aberto e o outro fechado, e os caninos acompanham a dire\u00e7\u00e3o dos olhos, um apontando para cima, o outro para baixo. A maior parte de sua cabeleira espessa e encaracolada est\u00e1 atada num coque frouxo no topo da cabe\u00e7a, com uma madeixa tran\u00e7ada jogada sobre o ombro esquerdo. Na m\u00e3o direita ele empunha uma espada, enquanto segura um rolo de corda na esquerda. Preto ou azul escuro, com sua apar\u00eancia robusta, parece, ao mesmo tempo, inamov\u00edvel e pronto para entrar em a\u00e7\u00e3o num \u00e1timo. Sentado ou de p\u00e9 em meio a um inferno flamejante, ele comanda o espa\u00e7o ao redor com autoridade absoluta. Se voc\u00ea um dia se encontrar num c\u00f4modo que contenha uma imagem de Fudo Myo-o, n\u00e3o ter\u00e1 olhos para mais nada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Naquela \u00e9poca eu tinha muito pouco dinheiro para uso pessoal, e o pouco que tinha, gastei com cart\u00f5es postais e p\u00f4steres de Fudo Myo-o. Sentia que gostaria de exibi-lo simplesmente porque era t\u00e3o magn\u00edfico \u2013 talvez da mesma forma que algumas pessoas ostentam a beleza ou o carisma de seus amigos em bailes ou festas black-tie.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu venho praticando o Arya Achala desde os seis anos de idade e quando crian\u00e7a passei muitas horas ouvindo hist\u00f3rias maravilhosas sobre ele. Atisha Dipamkara, por exemplo, certa vez navegou da \u00cdndia at\u00e9 a Indon\u00e9sia para implorar a Dharmakirti por ensinamentos sobre como ser gentil. Quando o navio partiu da Baia de Bengala, provavelmente em dire\u00e7\u00e3o ao Estreito de Malaca, uma tempestade irrompeu com tamanha viol\u00eancia que o navio come\u00e7ou a afundar. Atisha imediatamente fez preces para Arya Achala (nome indiano de Fudo Myo-o) e em poucos segundos ele surgiu, emergindo do oceano da cintura para cima, e ergueu o navio acima das vagas furiosas. Esse \u00e9 o tipo de hist\u00f3rias que me contavam na inf\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde a \u00e9poca em que o Sr. Mao me apresentou ao mais elegante dos pa\u00edses, mantive a mente aberta para a cultura, literatura, cinematografia, m\u00fasica e assim por diante. De l\u00e1 para c\u00e1 li tradu\u00e7\u00f5es em ingl\u00eas de muitos dos romances de Yukio Mishima e comi no seu restaurante tonkatsu favorito em T\u00f3quio. Li v\u00e1rias hist\u00f3rias de Yasunari Kawabata, escutei o Kokoro de Natsume Soseki e assisti os filmes de Yasujiro Ozu. Que artista incr\u00edvel! Sem mover a c\u00e2mera um cent\u00edmetro sequer, uma pilha de roupa suja pode ser capaz de levar o espectador \u00e0s l\u00e1grimas ou a irromper numa gargalhada. Assisti v\u00e1rios de seus filmes dezenas de vezes, e em todas ca\u00ed em depress\u00e3o p\u00f3s-filme ao concluir que jamais serei capaz de igualar suas realiza\u00e7\u00f5es extraordin\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A comida gourmet japonesa tradicional n\u00e3o \u00e9 a minha preferida; meu paladar ainda n\u00e3o conseguiu adquirir o n\u00edvel de sofistica\u00e7\u00e3o necess\u00e1rio para apreciar esse estilo de culin\u00e1ria. H\u00e1 quase demasiado a admirar: a disposi\u00e7\u00e3o dos bocados de comida, a combina\u00e7\u00e3o de cores, o tamanho das por\u00e7\u00f5es, os sabores e assim por diante. Tendo sido criado numa cultura mais tosca, \u00e9 muito mais prov\u00e1vel que eu coma uma tigela de ramen no Hakata Nagahama Ramen Miyoshi de Kyoto do que me aventurar num dos diversos restaurantes do pa\u00eds com tr\u00eas estrelas no guia Michelin.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde ent\u00e3o, visitei o Jap\u00e3o mais vezes do que a mem\u00f3ria me permite recordar e meu respeito pela precis\u00e3o, organiza\u00e7\u00e3o e aten\u00e7\u00e3o aos detalhes do Jap\u00e3o, e claro, pela eleg\u00e2ncia e etiqueta dos japoneses aumenta com o passar do tempo. Certa vez passei uma semana numa est\u00e2ncia termal numa aldeia nos arredores de T\u00f3quio. A esta\u00e7\u00e3o de trem dessa aldeia era min\u00fascula e o noodle soba bar que conseguiram espremer em uma de suas esquinas era ainda mais diminuto, mas os japoneses s\u00e3o mestre inigual\u00e1veis na arte de extrair o m\u00e1ximo proveito de espa\u00e7os impossivelmente reduzidos. Comi nesse bar de noodles v\u00e1rias vezes e a qualidade da comida era sempre excelente. Nem uma vez sequer a textura dos noodles ou o gosto do molho frio variou nem diminuiu de quantidade. Eu levava um livro e me sentava por horas a fio lendo, observando as pessoas e tomando caf\u00e9. Todo esse caf\u00e9 me fazia ir ao banheiro pelo menos uma vez, \u00e0s vezes duas ou mais e, n\u00e3o importa quantas vezes eu fosse ao banheiro, o papel higi\u00eanico tinha sempre sido dobrado de novo num desenho impec\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"292\" src=\"https:\/\/mugwortborn.com\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Toiletpaper-1024x292.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2762\" srcset=\"https:\/\/mugwortborn.com\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Toiletpaper-980x280.jpg 980w, https:\/\/mugwortborn.com\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Toiletpaper-480x137.jpg 480w\" sizes=\"(min-width: 0px) and (max-width: 480px) 480px, (min-width: 481px) and (max-width: 980px) 980px, (min-width: 981px) 1024px, 100vw\" \/><figcaption>Fotos de <em>Christoph Roser at&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.allaboutlean.com\/\">AllAboutLean.com<\/a><\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tecnologicamente, o Jap\u00e3o \u00e9 um dos pa\u00edses mais avan\u00e7ados do mundo. Nos anos 1960, os engenheiros japoneses foram pioneiros no projeto de trens de alta velocidade e desde ent\u00e3o constru\u00edram uma malha ferrovi\u00e1ria sem igual para seus trens Shinkansen, os trens-bala. Tudo que os japoneses fazem, fazem excepcionalmente bem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A forma japonesa, seu mundo exterior, continua sendo t\u00e3o elegante e bela quanto sempre. No entanto, e espero estar errado, temo que assim como os chineses (n\u00e3o s\u00f3 os da China continental, mas tamb\u00e9m os de Taiwan, Hong Kong e Cingapura), os japoneses estejam se despojando cada vez mais de sua cultura interna; se n\u00e3o se constrangem de sua heran\u00e7a, ao menos evitam chamar aten\u00e7\u00e3o sobre ela. A maioria dos japoneses fica mais confort\u00e1vel ouvindo nas reuni\u00f5es p\u00fablicas ou elevadores a m\u00fasica para piano de Chopin do que a m\u00fasica tocada em seus pr\u00f3prios instrumentos, como a shakuhachi (tipo de flauta japonesa) ou o koto (uma c\u00edtara).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde a restaura\u00e7\u00e3o do imperador em meados do s\u00e9culo XIX e da chegada de novos parceiros comerciais americanos e europeus, os japoneses sentem-se cada vez mais atra\u00eddos pela cultura ocidental. Segundo o que li a respeito, essa atra\u00e7\u00e3o come\u00e7ou um bom tempo atr\u00e1s. Murakami muitas vezes escreve sobre os romancistas americanos e europeus que admira, como J.D. Salinger e Franz Kafka, e sobre a m\u00fasica americana e europeia que adora, como o jazz e J.S. Bach (a cuja m\u00fasica ele se refere com exatid\u00e3o, pelo t\u00edtulo e n\u00famero no BWV). No entanto, ainda n\u00e3o li uma hist\u00f3ria dele que mencione a m\u00fasica tocada com instrumentos tradicionais japoneses. \u00c9 como se o pa\u00eds inteiro tivesse se rendido aos valores ocidentais. Tanto que os japoneses parecem abordar suas pr\u00f3prias tradi\u00e7\u00f5es culturais, como o Noh ou o Kabuki, da mesma forma que os turistas estrangeiros \u2013 como divers\u00e3o, como entretenimento, &#8220;recreativamente&#8221;. Os japoneses se tornaram turistas na sua pr\u00f3pria terra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os indianos s\u00e3o bem diferentes. Os indianos n\u00e3o s\u00f3 se orgulham de sua m\u00fasica, eles adoram ouvi-la. \u00acFrequentemente se ouve m\u00fasica tradicional indiana sendo tocada em volume ensurdecedor pelas janelas abertas das casas da \u00cdndia \u2013 n\u00e3o posso imaginar ouvir uma su\u00edte para violoncelo, de Bach, nas ruas de Varanasi. E onde quer que exista uma comunidade indiana, seja em Nova Deli, no Southall de Londres ou na Little \u00cdndia de Vancouver, h\u00e1 sempre lojas que vendem kits para puja de fogo sob medida para cada deidade e at\u00e9 esterco de vaca devidamente embalado para ser usado em cerim\u00f4nias religiosas ou simplesmente como incenso. Sendo um viajante inveterado, vejo homens e mulheres indianos em todos os aeroportos do mundo, os homens vestindo seus pijamas kurta e as mulheres em seus saris, as testas ungidas pela sindura. Eles n\u00e3o se vestem assim por divertimento ou porque sentem a necessidade de preservar suas tradi\u00e7\u00f5es culturais; eles simplesmente sempre se vestem dessa forma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As tradi\u00e7\u00f5es culturais profundamente arraigadas da \u00cdndia continuam a fazer parte da urdidura at\u00e9 das mais mundanas transa\u00e7\u00f5es. Li recentemente que, em 2020, na base a\u00e9rea de Ambala, foi celebrado um tradicional &#8220;sarwa dharma puja&#8221; entre as cerim\u00f4nias pela inaugura\u00e7\u00e3o dos novos jatos de ca\u00e7a franceses comprados pela for\u00e7a a\u00e9rea Indiana. E mesmo hoje, os monges jainistas que andam totalmente nus (eles praticam o desapego pelas posses mundanas e n\u00e3o possuem o que quer que seja, nem mesmo um dhoti) s\u00e3o membros do Parlamento da \u00cdndia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Parece-me que, ao contr\u00e1rio dos japoneses e chineses, os indianos n\u00e3o se envergonham de ver a si mesmos e se mostrar ao mundo como realmente s\u00e3o. No extremo oposto, h\u00e1 pouco mais de cinquenta anos, chocado com a esterilidade espiritual da vida japonesa moderna, Yukio Mishima tentou persuadir alguns integrantes do ex\u00e9rcito japon\u00eas a ajud\u00e1-lo a fazer o pa\u00eds retornar \u00e0 for\u00e7a \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es militares do pr\u00e9-guerra. Seu grande medo era que os japoneses vendessem a alma aos americanos. N\u00e3o tendo obtido sucesso, cometeu hara-kiri. Hoje, caso n\u00e3o tivesse sido cremado, estaria se revolvendo no t\u00famulo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cada vez que volto ao Jap\u00e3o, meu profundo anseio por esbarrar no Sr. Fudo num vag\u00e3o de trem lotado, num pequeno sushi bar ou num elegante caf\u00e9 japon\u00eas jamais arrefeceu. Mas, como meu treinamento em filosofia budista n\u00e3o me deixa esquecer, \u00e9 prov\u00e1vel que quarenta anos de anseio e esperan\u00e7a sejam justamente a raz\u00e3o pela qual n\u00e3o voltei a v\u00ea-lo. Ao menos n\u00e3o por enquanto. Paradoxalmente, meu treinamento filos\u00f3fico tamb\u00e9m me diz que meu anseio e esperan\u00e7a de encontr\u00e1-lo s\u00e3o a minha sadhana, e que n\u00e3o devo desistir. Assim, como muitos devotos do Senhor Krishna que se mudam para Vrindavan e passam o resto da vida ansiando por um vislumbre do deus azul, ou ao menos por ouvir a melodia de sua flauta, retornarei uma vez mais \u00e0 Terra do Sol Nascente cheio de anseio e com a esperan\u00e7a de que, dessa vez, eu finalmente volte a ver o Sr. Fudo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"768\" src=\"https:\/\/mugwortborn.com\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/buddha-g20cfb39e2_1920-1024x768.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2770\" srcset=\"https:\/\/mugwortborn.com\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/buddha-g20cfb39e2_1920-980x735.jpeg 980w, https:\/\/mugwortborn.com\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/buddha-g20cfb39e2_1920-480x360.jpeg 480w\" sizes=\"(min-width: 0px) and (max-width: 480px) 480px, (min-width: 481px) and (max-width: 980px) 980px, (min-width: 981px) 1024px, 100vw\" \/><\/figure>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">[1] <em>In Praise of Shadows<\/em>, Jun\u2019ichiro Tanizaki. Traduzido para o portugu\u00eas a partir da tradu\u00e7\u00e3o para o ingl\u00eas de Thomas J. Harper e Edward G. Seidensticker<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">[2] The <em>Sarvatath\u0101gatatattvasa\u1e43graha Tant<\/em>ra \u00e9 tamb\u00e9m conhecido como <em>Vajra\u015bekhara S\u016btra<\/em> na tradi\u00e7\u00e3o Shingon.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Sr. Mao era um chin\u00eas alto, espada\u00fado e corpulento. Com seus setenta e tantos anos, era calvo exceto por uma orla de ralos cabelos grisalhos que se estendia de orelha a orelha, mas sua face rosada e um ar malicioso lhe conferiam a apar\u00eancia de um adolescente malandro que vive se metendo em confus\u00e3o. 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